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Blog da Philoterapia


 

As vaias fazem história

 

Existem diversas formas de manifestações: Individuais, coletivas, suaves, radicais, escrita, falada, silenciosa. Mas, a vaia é um dos apupos mais temido. Muita gente perde o sono depois de receber um sonoro “Buuuuu”. Se o aplauso é uma manifestação de arrebatamento, a vaia é o seu oposto, é a expressão do descontentamento coletivo. A vaia ruboriza o vaiado, atemoriza os principiantes, é o pesadelo do artista, a desgraça do político, a ducha de água fria ao esportista.

A vaia é contingencial, momentânea, ela é possível mas incerta e, na sua essência, contraditória. A vaia vaia a si mesma, atinge pessoas, reprova ideias. Quantos festivais da canção foram decididos de acordo com o tom e o volume das vaias? Como esquecer a vaia que recebeu a canção Sabiá que venceu o festival de 1968 mesmo a despeito desaprovação da plateia, que preferia Para não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, notabilizada como hino contra a repressão política da época, e que ficou em segundo lugar. A vaia de Sabiá foi sonora mas não tinha o objetivo de reprovar a música e seu interprete, sua direção era outra. E até o nosso nobre Caetano Veloso não escapou do apupo estrondoso direcionado a musica “É proibido proibir” quando a plateia aplicou-lhe sonora vaia e lhe virou as costas. Hoje, Caetano é o que é.

A vaia pode marcar para sempre, por isso, pode ser histórica. Ela também pode consagrar. Assim, a vaia de hoje pode se tornar sagrada amanhã. Mas a vaia também pode ser uma manifestação desrespeitosa, quando aliada ao escárnio e direcionada sem escrúpulos aos mais velhos, a uma autoridade.

Pois esta semana a presidente Dilma Rousseff, autoridade máxima do país, também foi vaiada. Seu apupo aconteceu em Brasília por ocasião do discurso de abertura da 15ª Marcha dos Prefeitos que reuniu quase 4 mil autoridades municipais na capital federal. O tema polêmico da distribuição dos royalities do petróleo, aliada a franqueza com que a presidente costuma se manifestar deu no que deu.

Sobre a vaia, cabe ressaltar ainda, que ela pode ser pressentida, entretanto, para os corajosos, ainda assim, ela não pode ser evitada. É preciso ter confiança para dizer aquilo que as pessoas não vão gostar e muita coragem para fazer aquilo que precisa se feito neste país. Se os aplausos são passageiros, as vaias são eternas, porque só esta última é capaz de mudar os rumos da história. Presidente, é preferível ser bem vaiada do que mal aplaudida.

 

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

contato tell.mendes@gmail.com

 

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 15h45
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Arrependimento tardio

 

Na política é o que vem debaixo que atinge e, o que vem do passado, também. Quando a disputa é acirrada, tudo pode ser desenterrado, desde o comportamento escolar de um candidato até sua opinião particular sobre temas éticos complexos. O marqueteiro político tanto pode ser uma ave de rapina quanto um réptil rastejante, nada passa incólume a essa gente de comportamento duvidoso, nem as palavras, nem o silêncio. A mira, o foco, é um só: conquistar a simpatia do eleitor, ainda que para isso, na maioria das vezes, abra-se mão do bom senso e da razoabilidade.

E acirrada anda a campanha presidencial nos Estados Unidos, entre Mitt Romney e o atual presidente, Barack Obama. O primeiro um republicano, que teve seu passado escolar recheado de práticas nada recomendáveis, caracterizada de bullying por parte da mídia norte americana. Romney, obviamente, encontra dificuldades para se explicar, já reconheceu seus equívocos, já pediu desculpas publicamente, mas, não consegue fazer o milagre de passar uma borracha no seu passado, quando fustigou um colega gay. O passado tem essa característica: é impossível apagá-lo, ainda que o sujeito tenha mudado radicalmente suas atitudes, o passado sempre estará lá, remoendo-lhe a memória e compondo os anais da história. E, se foi ruim, numa disputa eleitoral, ponto para o oponente.

Já o segundo, Barack Obama, veio a público apoiar o casamento gay, tornando-se o primeiro presidente em exercício a defender abertamente a causa. Um contraponto tramado na medida exata, no tempo certo, para acertar em cheio o seu rival. Se se trata de uma convicção verdadeira, não vem ao caso, desde que ela possa se traduzir em votos. Assim é a política eleitoreira, algumas vezes inescrupulosas, onde, solitária, a verdade sofre todo tipo de maus tratos.

O grande problema dos golpes aplicados a facão pelo marketing eleitoreiro, é o candidato ter de sustentar o tão útil – ou seria fútil? - argumento depois de eleito e empossado no cargo. Isso explica, em parte, porque os políticos prometem e não cumprem e, não raras vezes, agem completamente em discordância com os discursos de campanha. Se o argumento procede, pode-se concluir que candidato não pensa por si, assim como os meninos em idade escolar que praticam bullying e mais tarde terão do que se arrepender. Campanhas políticas são bullying contra o eleitor.

 

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

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Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 15h22
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Não mãos do zé-ninguém

 

Ninguém é insignificante o suficiente para se tornar um João ninguém. Alias se é João não pode ser ninguém. João ninguém é, na realidade, uma frase contraditória. Assim como o zé-ninguém que quando é apresentado numa roda de amigos todos perguntam: você é o famoso quem? É do senso comum a associação do ser a fama, assim se o sujeito é famoso ou famosa, é alguém, se é um anonimo ou uma desconhecida, não é ninguém. Obviamente que a fama não é produto exclusivo da exposição na mídia, tem muita gente famosa com pouquíssima exposição e vice-versa. Gente que nada tem a acrescentar e, no entanto, com exposição excessiva na mídia.

Tem gente famosa que atribui à simplicidade o seu justo valor, e prefere a não exposição, o que de certa forma, a torna ainda mais famosa. A fama é assim, tem seus encantos mas, também cobra seu preço. Não é a toa que, na mesma proporção, muita gente famosa quer ser comum e muita gente comum que quer ser famosa. Então, que a exposição tem seus riscos não temos dúvidas.

Com a celebridade e o estrelato, as coisas são ainda mais radicais, pois, neste caso, a fama é levada ao seu extremo, e gera como contrapartida a perda quase que total da privacidade. No linguajar comum, diríamos que as celebridades não tem onde enfiar a cara. Todos os seus movimentos são vigiados, o que, convenhamos, deve ser um verdadeiro cárcere.

Acompanhamos na mídia esta semana a proporção que tomou o caso do roubo de informações digitais que envolveram a atriz global Carolina Dieckmann . Ela alega ser vítima de extorsão, mas o caso ainda carece de investigação. Fotos intimas da atriz com seu marido foram parar na grande rede mundial sem o seu prévio consentimento, o que caracteriza a inviolabilidade, a quebra do sigilo e das garantias da privacidade, crimes de uso da internet ainda não disciplinados por lei no Brasil.

O caso Dieckmann, pode ter um desfecho favorável para todos os brasileiros, pois irá por na ordem do dia do Congresso o Projeto de Lei que estabelece os princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil, definindo assim, um texto de lei específico para o ambiente cibernético que evite por em risco as garantias constitucionais de privacidade e liberdade de expressão de toda a sociedade. É imprescindível, urgentemente, evitar que o refúgio do anonimato se torne uma arma e um meio de extorsão nas mãos de um zé-ninguém.

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

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Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 11h42
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Políticos descarados

 

Nos últimos anos o Congresso Nacional, sistematicamente, tem se omitido da análise e, de por em pauta para discussão no plenário, os temas mais polêmicos. A vergonhosa omissão tem um só objetivo: evitar o desgaste politico dos componentes da casa junto a opinião pública. Assim, se o tema possuir em sua gênese a possibilidade de gerar qualquer tipo de impopularidade, o Congresso o rejeita e, automaticamente, diante de tal omissão, cabe o STF a análise, o julgamento e a decisão.

Nos últimos anos tivemos alguns casos que podem perfeitamente ilustrar o medo quase aterrador e o escapismo do Congresso em relação aos temas mais ácidos e de repercussão diversificada na sociedade, por exemplo: o uso de algemas, que em alguns casos alegava-se infringir os princípios da dignidade humana, da união de homossexuais com a mesma estabilidade que é concedida aos casais héteros, da fidelidade partidária que trata da perda de cargos eletivos para os não féis ao partido, do uso de células troncos e, mais recentemente, o aborto de anencéfalos que provocou um rebuliço geral na sociedade, especialmente, entre as diversas entidades religiosas.

Pois agora os deputados querem aprovar uma proposta de emenda constitucional (PEC) que instrumentalize o Congresso do poder de veto das decisões da Suprema Corte. Considerando que as temáticas de caráter polêmico, geralmente, de cunho ético, exige a inteira compreensão da lei e um conhecimento aprofundado da Constituição, é temerário que políticos populistas e despreparados, cuja representatividade, na maioria dos casos, se restringe aos interesses de pequenos grupos sociais, julguem causas de interesse maior da nação. Vetar decisões do Judiciário pode significar a instalação ampla e irrestrita do caos, uma vez que podem por os critérios políticos e populistas antes da lei.

Senhores deputados se as decisões do judiciário estão contrariando seus interesses pessoais e imediatos, então, porque não evitar as omissões dos temas mais polêmicos por parte da casa? É no minimo desavergonhado, querer alterar a Constituição e colocar o STF na execução de um trabalho prévio e menor de análise do tema em relação à lei e reservar aos políticos populistas o poder de veto. São atitudes desta estirpe que expõem cada vez mais a descrença da população em relação ao poder legislativo. Ver o palhaço Tiririca com o poder de veto de uma decisão do STF seria humilhante demais para nosso povo e para nossa nação.

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

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Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 12h41
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Humano, demasiado humano

 

Qualquer ideia pode apoderar-se de nós com força bastante para que a sustentemos até a morte, mas, somente quando elas veem à tona é que se pode, de fato, buscar os seus fundamentos ou suas verdadeiras razões. As recentes desavenças públicas entre o ministro Cezar Peluso e o ministro Joaquim Barbosa, ambos do Supremo Tribunal Federal, expõem as fraturas da suprema corte do país e deixa evidente que nem sempre é a razão a mola propulsora das discussões e, por consequência, desconfia-se que o produto final do STF nem sempre pode receber o caráter dourado da racionalidade, ou seja, isento de preconceitos, seja em que tema for, o que, em tese, põem pitada de dúvida nas próprias decisões.

Quando as discussões entre magistrados descambam para os xingamentos mútuos é a emoção que esta no comando, é o ego que espia por debaixo da toga e flerta com os preconceitos tornando a discussão chula, porém inteligível, o que, a primeira vista parece-nos um contrassenso. É na briga de foice que as angustias, as discordâncias, até então represadas, vem à tona. É quando o desrespeito agiganta-se que se abrem os espaços para sustentarmos a tese de que humanos, demasiadamente humanos, são todos aqueles que julgam mesmo ocupando o lugar mais privilegiado do judiciário.

As brigas públicas, lavam a roupa suja fora da área de serviço e deixam transparecer para todos os brasileiros e brasileiras que, por debaixo das togas, encontra-se homens e mulheres, com as qualificações e defeitos comuns e presentes nos mais humildes e simples dos mortais. Também na corte suprema, estão os poetas, os intransigentes, os inseguros, os tirânicos, negros, brancos, homens, mulheres, bregas, caipiras, e gente de temperamento difícil. São as discussões públicas que tiram das sombras o caráter de cada magistrado e é nelas que se pode desencantar alguns vestígios das forças que os movem nos julgamentos dos temas que envolvem os destinos de todos nós brasileiros. O exemplo de Barbosa e Peluso não é bom, mas, pelo menos, retiram dos magistrados a pompa de arautos da racionalidade e deixa claro que Friedrich Nietzsche tinha razão ao afirmar que "Toda crença no valor e na dignidade da vida se baseia num pensar inexato; (...) porque cada um quer e afirma somente a si mesmo"

 

 

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo.

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Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 12h57
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Rebuliço Cultural?

Não se pode negar que, com o advento das redes sociais, as relações humanas passaram a ser fortemente regidas e intermediadas pelas tecnologias. Trata-se de uma rede dentro da grande rede que é a internet e numa escala tão maciça que o limite entre o mundo virtual e o mundo real tornou-se imperceptível; invisível mesmo, ao ponto de não mais se fazer a distinção entre estar ou não estar on-line. As comunicações digitais colocam os acontecimentos em tempo real e nos aparelhos celulares de boa parte da população. Uma época assim exige novas iniciativas públicas, novos princípios, novas garantias, direitos e deveres do Estado e da sociedade como um todo, justamente por necessidade de adequação à pluralidade e à diversidade, oriundas desta nova onda de se viver em rede.

O internetês está em todos os cantos, e provoca um rebuliço cultural que põem em cheque a própria linguagem. A abertura é tamanha que a privacidade perdeu-se no global e passou a ser objeto de uma legislação específica onde a inviolabilidade e o sigilo das comunicações passou a ser um direito do usuário juntamente com a liberdade de expressão. As consequências deste enorme elo virtual ainda são difusas pois as referencias mudaram e os padrões culturais ditos convencionais, começam a ser questionados agora num fórum muito mais amplo. As fronteiras entre o local e o global, tornaram-se mais sutis, e algumas evaporaram como o Berliner Mauer construído durante a guerra fria. Ainda carecemos de um nome de consenso para demarcar esta época das máquinas de computar, de Facebook, de Twitter e de muita conexão.

No entanto, a quebra de paradigmas é evidente. A cultura digital e a tecnologia - esta como ferramental de acesso - passaram a ser a base das novas relações sociais e, juntas, poderão reduzir as desigualdades e fomentar a participação ampliando a cidadania, sobretudo nas diversas localidades que por questões geográficas não teriam acesso aos novos conteúdos produzidos pela contemporaneidade. Mas, que nome dá a este rebuliço cultural?

 

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

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Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 16h07
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Brincadeira tem hora

 

 

O Partido da República levou a sério a ideia da candidatura do palhaço Tiririca para a prefeitura de São Paulo, tanto que encomendou uma pesquisa para testar a viabilidade de tal empreitada. A ideia estapafúrdia já havia sido ridicularizada nas redes sociais mas, ainda assim, o PR investiu na pesquisa e obteve como resultado o que qualquer pessoa de bom senso já sabia de antemão, Tiririca conseguiu apenas 4% das intenções de voto. A mesma pesquisa aponta para uma rejeição de 70%, o que, por dedução natural, demonstra claramente que os mais de 1 milhão de votos conquistados pelo palhaço nas últimas eleições para Deputado Federal foram, na sua grande maioria, construídos a partir dos votos de protesto dos eleitores paulistas.

Se a pesquisa não serviu aos propósitos do PR, pelo menos colocam as coisas nos seus devidos lugares. Assim, a força conquistada pelo palhaço Tiririca nas urnas não é fruto dos seus esforços individuais, portanto, não constitui mérito seu e menos ainda de seu partido. Os votos que recebeu foram de desdenho do eleitor e encontraram sua força na descrença generalizada dos mesmos em relação à classe política como um todo. Nesse sentido, os números ainda revelam que o poder de barganha do PR para uma possível coalizão em São Paulo também é pífio.

Mas, o resultado da pesquisa ainda desvenda um outro desafio, agora não mais ao PR, nem ao próprio Tiririca, mas para os demais candidatos a prefeito de São Paulo. Pois, caberá a eles, reconquistar a confiança dos mais de 1 milhão de eleitores que registraram nas urnas sua insatisfação e desesperança para com os políticos ainda que isso tenha custado aos cofres públicos aproximadamente R$ 6,6 milhões ao ano. A rejeição agora tem uma base, tem um registro, tem um número e só será superada e recuperada com um plano de governo que possa restabelecer a crença do eleitor e implantar melhorias concretas no município mais populoso do país. Os números da pesquisa ainda revelam que os eleitores paulistanos levam as eleições municipais a sério e que não estão dispostos a se divertirem com um debate político pré-eleitoral na TV entre Gabriel Chalita, José Serra, Fernando Haddad e Tiririca. Com bem diz o ditado, até a brincadeira, tem sua hora.

 

 

Sergio Peixoto Mendes, filósofo

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Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 13h50
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Mea culpa

 

A atual conjuntura política brasileira merece algumas reflexões.

Todos sabemos que a ansiedade, o despreparo e o desleixo, não são compatíveis com o rigor, pois, afrouxam por demais os nossos critérios de escolha e, consequentemente, podem nos induzir ao erro. A primeira, por afobação, no induz a pressa e nos afasta da perfeição. Afinal, não é a pressa a inimiga da perfeição? O despreparo está associado à falta de aculturamento, o que por si só inibe o potencial intelectual do indivíduo e, mais ainda, o seu poder de reflexão sobre o mundo e sobre os outros. E o desleixo, muitas vezes, é a gota d’água que transborda o copo e dá vazão a um “não estou nem aí” para o mundo e para aqueles que nos rodeiam.

Quando abrimos uma revista semanal, um portal na internet, ou o nosso jornal diário e nos deparamos com as mazelas políticas que assolam este nosso país, logo e, facilmente, encontramos um culpado, um corrupto, um lobista, um nome qualquer para servir como bode expiatório para os equívocos de nossas próprias escolhas. Mas, isso só é assim porque é mais fácil pôr o deslize alheio na berlinda do que os nossos próprios. É muito mais simples criticar do que construir e, é longo o caminho entre o falar e o fazer.

Do ponto de vista político, dentro de um modelo representativo, temos, como eleitores, as nossas mazelas para tratar. O primeiro passo consiste em direcionar um primeiro olhar crítico para as nossas próprias escolhas e dar sustentação aos nossos juízos e, assim, evitar alçar ao poder gente despreparada. Só o rigor, desprovido da ansiedade, do despreparo e do desleixo, nos permitirá distinguir o certo do errado, os “malfeitos”, das tramas urdidas e forjadas pela competição desleal em busca e pela manutenção do poder e os demais golpes baixos utilizados durante as campanhas.

Combater a corrupção que atualmente assola este imenso Brasil é um ato individual e passa, necessariamente, pela análise das nossas próprias atitudes, sejam elas diante das urnas, ou diante de um palanque eleitoral. Não basta levantar uma bandeira ou bradar um chicote, é preciso fazer o simples, votar certo, ou seja, utilizar os critérios do exemplo, do histórico, da idoneidade e dos serviços prestados, para eleger os nossos representantes, seja no Congresso Nacional, sejam nas três esferas do Governo. Afinal, o rigor deve ser mais importante no momento da escolha do que no momento da punição

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

Contato: tell.mendes@gmail.com

 

 

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 12h14
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Mais um qualquer um

 

O imbróglio que envolve a suposta relação do Senador goiano Demóstenes Torres – até então considerado o paladino da ética no Senado - com o Sr. Carlinhos Cachoeira, preso recentemente por contravenção, fatalmente, resultará na renuncia do mandato ou na cassação do Senador. Mas, o que chama a atenção nas matérias sobre o caso publicadas pela mídia é uma frase, uma pequena sentença que é atribuída ao Senador e que versa sobre o destino da nação. Segundo Demóstenes, a gestão da res pública exige dos seus agentes uma “conduta adequada à dignidade das relevantes funções públicas”. Considerando os últimos fatos que envolvem o Senador e que veio à tona após investigação da Polícia Federal, a frase é apenas mais uma daquelas ideias que não correspondem aos fatos – como bem disse Cazuza – e que, portanto, é vazia na sua essência, justamente por não encontrar suporte na própria conduta do Senador.

Entretanto se, num exercício de reflexão, deixarmos de lado os fatos, a frase do Senador Demóstenes expressa o sonho de milhões de brasileiros e brasileiras. É tão profunda e inspiradora que deveria ocupar um lugar de destaque em placas de bronze ou no frontispício do Congresso e em todos os demais prédios da Esplanada dos Ministérios, nos palácios de governos, prefeituras, etc. Ter conduta digna de um representante do povo, de um agente da nação, significaria, em muitos casos, abrir mão dos interesses pessoais. Significaria, antes de tudo, pôr os interesses coletivos no foco ampliando a lupa para que ele contemple os anseios maiores da maioria. Mas, ter uma conduta digna é um trabalho de Hércules, exige do homem que ele seja um super-homem,  para ir além de suas inclinações naturais e retirar o foco do seu próprio umbigo.

Se as funções públicas exigem do homem que ele supere o seu egoísmo, que deixe de lado o seu orgulho, que reprima o seu desejo de mando e de poder, em prol do bem comum, então ela é uma atividade sagrada e que, portando, não deveria ser pleiteada por qualquer um. O Senador Demóstenes, para decepção de muitos brasileiros, esta prestes a ocupar um lugar na vala comum, justamente por se perder na fusão do discurso à prática. É uma pena Senador.

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

Contato: tell.mendes@gmail.com.br



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 16h30
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Isso é normal?

 

Numa entrevista recente concedida pela Presidente Dilma Rousseff a uma revista de grande circulação, ficou evidente sua aversão por uma prática muito corriqueira na política brasileira, o famigerado toma lá da cá, por demais utilizado por políticos que, de forma completamente arbitrária, impõem ao executivo as suas condições para aprovar e levar adiante os projetos do Governo no Congresso Nacional – muitos deles de interesse popular – definindo assim um “preço” para fazer aquilo pelo qual já são pagos para fazer, ou seja, legislar em prol do povo.

Mas, o que é o toma lá da cá? Visto pelo lado positivo, é um sistema de troca, onde, espera-se, que os dois lados tenham vantagens numa negociação. Visto pelo prisma oposto, ou seja, quando um dos lados impõem a sua vontade, o toma lá da cá se transmuta numa das categorias da chantagem. Esta última, por sua vez, pode ser considerada crime, especialmente, quando o praticante utiliza desta artimanha para extorquir, explorar, ou levar vantagem pessoal e unilateral, impondo o seu querer, o seu desejo, sem considerar o direito de escolha e a liberdade do outro lado em questão. O toma lá da cá origina-se, na maioria das vezes, no desejo desenfreado do ser humano de querer levar vantagem em tudo – na cultura brasileira a tao famigerada lei de Gérson – onde o princípio básico consiste em se aproveitar de qualquer situação para obter benefícios próprios sem dar a mínima atenção para os aspectos éticos e morais.

A Presidente Dilma Rousseff ao de posicionar contra atitudes desta extirpe, obviamente, expressou a aversão de milhões de brasileiros e brasileiras que se sentem enganados e extorquidos, por políticos e seus respectivos partidos que, já há muito tempo, confundem legislar com negociar. Alias, negociar não é a palavra mais adequada, a prática é melhor definida pela palavra “negociata”, com toda a carga pejorativa que a ela pode-se imputar. Negociata é, hoje em dia, a mola propulsora dos partidos políticos, sejam os aliados ao governo, sejam os partidos de oposição, sejam os de direita, sejam os de esquerda, pois, o vício danoso da ganância tomou todos os espaços possíveis na política brasileira.

Mas, ainda falta falar aqui, no pior, que consiste em querer empurrar goela abaixo do povo que o toma lá da cá é uma prática normal, lícita e que, portanto, pode ser utilizada sem pudores e restrições e completamente a margem da ética. Se assim for, pergunta-se: o que reserva o futuro para as próximas gerações? Qual será nosso futuro político? Senhores, é preciso dar um basta ao toma lá da cá.

 

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 11h46
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Pequenos Problemas Contemporâneos

 

Os problemas da humanidade são tão constantes quanto a própria mudança. Sempre os tivemos. Entretanto, de umas poucas décadas para cá, eles passaram por transformações radicais e num ritmo frenético. Deixando de lado aqueles problemas de solução mais complexa - os filosóficos e os matemáticos, por exemplo -, falaremos aqui daqueles menores  e que se originam em função da  relação forte de dependência com a tecnologia, mas que, se não forem tratados com seriedade poderão causar grandes impactos nas futuras gerações.

Eis alguns exemplos: nos dias atuais, o pão e o leite, deixam de ser vendidos na padaria porque o “sistema” do caixa está fora do ar. As filas se agigantam, nos bancos, nas lotéricas, também porque o sistema está com pane e nada pode ser pago nem retirado do banco. Os passaportes, a carteira de habilitação e de identidade, também dependem do sistema para serem expedidas. Até os carpinteiros e pedreiros, atrasam a entrega do orçamento porque deu pau no serviço de e-mail. Quantas vezes foi impossível abastecer o carro porque a máquina de cartão de crédito estava com problemas? Também não foi possível adentrar no shopping porque o sistema de controle de acesso do estacionamento parou de funcionar.

Roubam-se os notebooks e lá se vão nossas agendas, e com elas se vão também todos os nossos contatos telefônicos. É comum comer lendo e-mails, twittando ou publicando mais uma frase de efeito no Facebook, o que, provavelmente, não deve fazer bem a ingestão e digestão dos alimentos. Já o garçom não pode tirar um novo pedido porque estava sem conexão com a cozinha, enquanto, na saída, a conta teve de ser “pendurada” porque a tarja do cartão de crédito se desmagnetizou. A leitora da catraca do ônibus entrou em pane e todos foram a pé para a biblioteca remota da escola. Sem contar que o professor na sala de aula discutiu com o aluno por causa do Wikipédia que contrariava os seus ensinamentos. Preocupa também se ver os campinhos de pelada vazios porque as crianças estão jogando futebol no computador. Bem, pelo menos um grupo de novatos navegadores,  utilizando apenas um tablet,   conseguiu dar uma volta ao mundo transmitindo as imagens da viagem para todas as salas de estar. Quem não assistiu poderá encontra-las no Youtube.

São, dias difíceis estes, onde os problemas se ajustam às tecnologias e mudam apenas de lugar.

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo e escritor.

contato: tell.mendes@gmail.com.br

 

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 10h41
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O virtual mundo real

 

Definitivamente, nos dias atuais não basta ter amigos é preciso ter seguidores. Num tempo onde recortar e colar é atividade corriqueira e os textos curtos viraram moda, os amigos virtuais passaram a ter prioridade em relação aos amigos reais. Tempos estranhos estes, onde as pessoas estão criando raizes em frente ao computador e almoçar sozinho ou almoçar com alguém que tenha um iPhone, ou um netbook, é a mesma coisa.

Esta semana numa conversa de corredor também ouvimos uma colega contar que, na noite anterior, havia sido repreendida por um grupo de amigos por estar utilizando as redes sociais na mesa de um bar e não dando a mínima importância para o “bota fora conversacional” e que, portanto, apenas seu corpo estava com eles no bar e não sua mente. Estas histórias, obviamente, são coisas recentes, surgiram com o advento da internet e com a popularização dos NetBooks, IPhones, Notebooks e outros “nets”. Muitos estudiosos de TI (tecnologia da informação) e grandes empresas deste segmento de mercado já estudam novos produtos – softwares – para tentar minimizar, ou mesmo, por fim, a esta crise – seria esta a palavra mais adequada? - geral de desinformação e intoxicação informacional. É paradoxal desenvolver um software para regularizar e ordenar a bagunça generalizada pelos próprios softwares mas, a proposta esta em alta e objetiva, especificamente, eliminar alguns efeitos nocivos do excesso de informação na vida das pessoas e evitar que o mundo virtual vire vício ou síndrome.

A questão colocada desta forma passa a sensação de que as novas tecnologias, sejam os aparelhos eletrônicos, sejam as almas destes aparelhos – os programas –, trazem mais malefícios do que benefícios. Neste momento, criar um juízo de valor sobre esta temática é temerário, mas não custa nada discutir o assunto. As tecnologias, especialmente aquelas que operacionalizam e funcionam conectadas a grande rede mundial, estão, de fato, tirando as pessoas do mundo real e situando-as no mundo virtual. Os exemplos e depoimentos pululam em todos os lugares, inclusive na área acadêmica. O pessoal da pedagogia, espalhados pelo mundo, já colocaram em dúvida a eficácia da TI no processo de aprendizagem escolar. Recentemente foi publicado numa revista da área, o depoimento de um professor de uma escola que testou o uso de computadores em sala de aula. Dizia ele: “quando os alunos desenvolvem forte vínculo com seu laptop, o computador passa a representar uma distração no processo educacional” . Obviamente que os impactos, do ponto de vista da aprendizagem e do desenvolvimento acadêmico dos estudantes, não são apenas negativos, entretanto, fica a dúvida sobre os benefícios pedagógicos da TI na formação dos alunos. A temática é interessante e merece uma atenção especial, por parte da sociedade acadêmica e, especialmente, pelo MEC.

Já para aqueles que esqueceram o brilho do mundo real, fica o alerta: não leve seu Netbook para a mesa de um bar, não dê demasiada atenção ao seu iPhone, pois, o risco de que seus amigos reais lhe esqueçam de vez é grande.

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

Contato: tell.mendes@gmail.com

 

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 16h40
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O novo perfil do consumidor

 

Uma temática muito comum, nos fóruns sociais, nos jornais, e em publicações especializadas nos últimos tempos, tem sido a preocupação com a exaustão dos recursos naturais do planeta, inclusive dos combustíveis fósseis e os possíveis reflexos no clima, na economia local e global e, especialmente, no perfil dos consumidores de bens e serviços.

Aqueles a quem cabe a atividade de estudar aprofundadamente o mercado e os desejos dos consumidores em geral, tem constatado que, em função dos problemas citados, o perfil destes últimos vem mudando em ritmo acelerado. A necessidade de se ter uma consciência sustentável aliada a redução do desperdício e do uso abusivo dos recursos naturais, vem modificando significativamente a postura dos consumidores e também das empresas geradoras de bens de consumo. Num momento onde o uso passou a ser mais importante do que a posse do bem, onde o consumo colaborativo passa a ganhar espaço em detrimento do consumo desenfreado com base na estratégia do descarte, a mudança torna-se inevitável.

A motivação dos consumidores com um viés verde e sustentável está embasada em fortes vínculos com a economia de custo e com a diminuição do impacto global que o uso indiscriminado dos recursos do planeta possam ter. Algumas empresas, inclusive, já adotam novas estratégias para se adequarem a este novo quadro global ainda que por uma motivação inicial de conquistar esta nova fatia de mercado ou ampliar os lucros. Ser mais consciente e sustentável socialmente esta na moda, andar de bicicleta está em alta, usar o mercado local e a produção originada na própria comunidade, agora é chique. Por fim, existe uma desconfiança, que acabará por se generalizar em boa parte da sociedade, de que quanto mais coisas acumulamos em nossas vidas, menos tempo – e também menos espaço - teremos para outras pessoas e para o cultivo dos nossos afetos.

Entretanto, esta nova mentalidade do consumidor moderno não chega a se constituir numa ameaça ao sistema capitalista mas, levará, por certo, a um rearranjo das forças produtivas com possíveis reflexos econômico-sociais. Aqui, o vilão a ser combatido não é o capitalismo e sim o hiperconsumismo originado pelo equivoco de que o dinheiro pode comprar coisas e estas trazerem a felicidade. É esta a crença a ser combatida pelas próprias forças de mercado, especificamente, pelo consumo colaborativo onde o uso, o aluguel, o empréstimo, ganham, aos poucos, o espaço até então ocupado pela posse e pela propriedade que nunca trouxeram ao homem a tão almejada felicidade.

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo.

Contato: tell.mendes@gmail.com

 

 

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 15h29
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A Confissão do Bispo

 

 

Na semana passada a presidente Dilma Rousseff nomeou um bispo da Igreja Universal para o Ministério da Pesca e, logicamente, muita gente estranhou. Os motivos que a levaram a tal nomeação é do conhecimento de todos, apaziguar os evangélicos e abrir ainda mais os espaços para a candidatura do ex-ministro da Educação Haddad à Prefeitura de São Paulo. Mas, voltemos na história, especificamente no tempo da Galileia de Jesus, para entender a escolha da presidente.

O divino rabino, sempre que perguntado, costumava se definir como um pescador de almas. Jesus, o filho do carpinteiro, pouco conhecia da arte de pescar, talvez também não sabia sequer colocar uma minhoca no anzol mas, tinhas entre seus discípulos alguns pescadores profissionais que largaram sua labuta junto ao mar para segui-lo pela Palestina pregando o amor ao próximo. Dilma Rousseff, neste aspecto, está correta: o senador Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal, embora de outra estirpe, pode de fato se sair bem como Ministro da Pesca, especialmente se se cercar de gente competente para ajudá-lo nesta atividade. Embora seja do conhecimento de todos que não serão os peixes nem a comunidade de pescadores sua prioridade e que a isca é apenas um engodo político.

Mas, independente dos fatos políticos que o alçaram a Esplanada, o senador evangélico, iniciou de forma primorosa, o seu caminho espinhoso como ministro, ou seja, falando a verdade, e isso é raro. Muitos não sabem colocar uma minhoca no anzol mas, nem por isso se confessam inaptos. Crivella optou pela verdade e isso é um ótimo começo, um início auspicioso, especialmente neste meio político onde a cara de pau e o mal caratismo impera. Onde políticos e administradores públicos quando pegos com a mão na cumbuca, negam seu próprio ser. Negam o inegável, a própria imagem gravada. Deste tipo de gente não se espera que reconheçam sua inaptidão para o cargo. Já o senador Crivella, pelo menos optou pelo ato confesso da falta inicial de capacidade e isso, além de raro, pode ser visto como um bom começo. Ao explicitar publica e antecipadamente sua inaptidao para o cargo, o senador Crivella retirou dos seus opositores o principal argumento de crítica. Parabéns senador, a verdade antes de tudo.

 

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

contato: tell.mendes@gmail.com

 

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 16h06
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O Conhecimento que Leva a Fogueira.  Um Tributo a Giordano Bruno

 

                        Um castiçal de ouro refletia o cerimonial de aparente beleza. Vozes entoavam cantos na forma de mantra capaz de agradar e, ao mesmo tempo, repelir a própria divindade. Seguia pela ladeira o ritual carregando consigo a ortodoxia escolástica sob à luz de velas prestes a se apagarem. O calendário humano assinalava o ano de 1.600, e a procissão seguia. O ritual bonito buscava agradar uma divindade transcendente, cobrindo a ignorância, o preconceito, o dogma e a intolerância.

                        Os fiéis eram os mesmos que outrora haviam escolhido o filho do carpinteiro para carregar suas cruzes. Em suas exaltações continuavam imponentes e pretensiosos. As recentes descobertas marítimas, Índia e América, quase nada significavam. A preocupação maior dos comandantes do cortejo não era com o novo e sim com a manutenção, a qualquer preço, da tradição. Por isso sacrificavam a individualidade criadora para conservar o poder, verdadeiros trabalhadores da inércia.  O conflito era o mesmo da época do divino rabino: um passado que se recusava a morrer.

                        Mas o progresso impõe-se e então as velhas regras desabam e era justamente isso que preocupava os escolásticos. Os rigores da moral agostiniana não eram mais obedecidos com tanta facilidade e, com isso, estavam enfraquecidas as regras do cristianismo. Algumas transformações estavam ocorrendo com o pensamento científico e filosófico. A visão de mundo não poderia mais permanecer a mesma após as recentes descobertas de Copérnico (1473-1543), onde o heliocentrismo opõe-se ao teocentrismo. O interesse pela natureza acentua-se e o mundo passa a ser novamente objeto de estudos, deixando de ser o terreno mundano de provas e expiações. O homem se autovaloriza, pois, assim, parece querer a divindade. Mas eles, os conservadores, nada percebiam além de seu limitado horizonte e pretendiam manter a qualquer preço a verdade fornecida pelos teólogos e filósofos da idade média.

                        A revalorização do homem, como ser capaz de criar o seu próprio projeto de vida, surge naquele meio através da filosofia humanista de Erasmo (1465-1536) e de Thomas More (1478-1535). Aparecem também as visões céticas de Montaigne (1533-1592) que negava toda a possibilidade do homem conseguir conhecimentos estáveis colocando, assim, a certeza no terreno das coisas inalcançáveis. Não se pode deixar de citar as reformas propostas por Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) que provocaram acentuadas transformações religiosas.

                        Basta um pouco de reflexão para se constatar a impossibilidade das transformações ocorrerem sem conflito. É realmente necessário que algo entre em derrocada para que se estabeleça o novo? A implantação do novo, geralmente, não ocorre fora do campo de luta, algumas ideológicas, outras sangrentas. Os tradicionalistas sentem-se ameaçados, reagem e enfrentam as inovações, às vezes com violência e morte. É assim que os representantes de uma nova mentalidade, na maioria das vezes, se tornam mártires. Aparecem como verdadeiros destruidores de barreiras e muralhas, algumas delas já carcomidas pelo tempo. O sujeito levanta-se das massas, cresce no seu interior e cumpre o plano maior do progresso, algumas vezes de forma inconsciente. Outros, com persistência e com coragem, enfrentam os manipuladores da força, os mesmos que ainda não haviam percebido que a força é insuficiente diante do tempo de mudanças.

                        É neste cenário de luta que aparece Giordano Bruno. Nascido em Nola (Itália) em 1548 estudou e doutorou-se em teologia no convento napolitano de São Domingos. Durante seus estudos, deixou-se impressionar particularmente por Lúlio (1233-1315), por Copérnico e pelo divino Cusano (1401-1464) que de alguma forma o levaram a afastar-se da ortodoxia católica.

                        As estrelas nascem e aqui estamos diante de uma supernova. Outrora o que era inferno passa a não ser mais. O céu continua em seu infinito curso a mudar de lugar e, com isso, distancia-se dos homens involuídos, os mesmos que tentaram deter o fluir das coisas sem perceber o que faziam. O poder infinito tira das entranhas do velho, o novo, numa metamorfose sofrida por culpa dos dogmáticos. A queda do castiçal de ouro parece ser iminente, suas pequenas velas tremem e podem ceder lugar ao sol da individualidade criadora dos mártires.

                        O filosofo de Nola balança o castiçal sabendo que seria odiado e censurado por tal atitude. Sua descoberta filosófica era contrária a corrente de pensamento da época. Para ele, submeter-se aos valores da época é dignos de mercenários e escravos, por isso empenhou-se na luta contra a ignorância, o preconceito, o dogma e a intolerância. O sistema teológico-filosófico da época tinha base na astronomia de Ptolomeu, em que a terra era o centro do universo, um ponto imóvel e privilegiado. Ela era o centro do movimento circular uniforme impresso por Deus aos corpos celestes. Esta visão de mundo não agradava Bruno, principalmente a concepção de um deus transcendente. A esta concepção ele contrapôs as descobertas astronômicas de Copérnico, que eram bem contrárias à concepção vigente.

                        Bruno teve o mérito de perceber as implicações filosóficas oriundas desta descoberta de Copérnico passando então a defender o astrônomo polonês dos ataques dos doutores da época. Mas ele foi muito além, ao minar algumas velhas barreiras, abrindo novos espaços para as novas descobertas da ciência.  

 

            Considerações Finais Sobre a Filosofia de Bruno

 

                                    A filosofia monista/humanista não só balançou o castiçal de ouro, como também ofuscou seu brilho e reflexo, demonstrando àqueles que o carregavam que o ouro é apenas aparente e que, mesmo as fogueiras, não queimam tudo. A luta pessoal de Bruno contra os peripatéticos estendeu-se à humanidade, ganhou o espírito reflexivo. Sobre este aspecto já afirmava Heráclito com muita propriedade: “da discórdia nasce a mais bela concórdia”, e que por trás do conflito encontra-se a mais bela harmonia. Esta harmonia oculta é ainda melhor que a harmonia aparente. Como o arco e a lira necessitam de determinada tensão, a renascença dela também necessitou.

                                    Assim, o pêndulo move-se entre os extremos e seu movimento serve como força propulsora para todas as coisas. Bruno, de um lado e Aristóteles de outro, cada qual em seu tempo e em seu momento, impulsionaram o pensamento humano na busca do conhecimento, de si mesmos e do mundo.

                                    A "verdade", sempre indomável, foge dos limitados sistemas e, com sua fuga, traz a outros corações a esperança de um dia poder encontrá-la neste universo infinito em que o eterno estado de mudança é a única constância. Bruno movia-se dentro de deus e era também o próprio deus, segundo seu sistema. Mesmo aqueles que estão acostumados a ver deus fora da criação e como um deus vingativo, um dia perceberão que a corrente que os prende a esta idéia também está condenada a ser livre. Bruno deu o alerta ao enfrentar os escolásticos.

                                    O filósofo é este agente destruidor das correntes que estão colocadas nas portas dos miseráveis. Mas, como todas as coisas passam, seus pensamentos também passarão, para renascerem adiante, renovados, re-trabalhados, neste eterno fluir das coisas.

                                    Bom para Bruno, bom para Aristóteles, bom para todos que as coisas assim sejam.

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) �s 17h12
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