A lógica papal
Esta semana, na França, um grupo de pessoas em protesto distribuiu pelas ruas de Paris preservativos estampados com a foto do papa Bento XVI. A imagem do artefato circulou o mundo na grande rede. Sem duvida, trata-se de uma provocação ao Vaticano. Na embalagem da “camisinha” o sumo pontífice aparece com as duas mãos para cima, em direção aos céus, vestindo seu manto papal. A estampa num fundo branco tem como título a frase I SAID NO! (eu disse não) e, naturalmente, é um protesto dirigido ao discurso do sumo pontífice realizado recentemente em sua visita ao continente africano. Bento XVI, que iniciou sua viagem à África pela República de Camarões, afirmou, ainda a bordo do avião em que viajava, que não se podia resolver o problema da Aids com a distribuição de preservativos e que, ao contrário, sua utilização agravaria o problema. 
Não é novidade para ninguém que o Vaticano se opõe a todas as formas de contracepção diferentes da abstinência e reprova o uso do preservativo, mesmo nos casos de prevenção de doenças. Parece-nos óbvio que esta postura da igreja romana, em pleno Séc. XXI cause espanto e seja causa de protesto, principalmente, na França, mas, para o papa não é tão óbvio assim. Entretanto, não se pode negar que a lógica papal está correta. Vejamos: Sexo é procriação, os preservativos são contraceptivos, logo, inibem a procriação, então, o uso do preservativo precisa ser banido do seio da sociedade. O encadeamento lógico está correto, se as premissas secundárias decorrentes da premissa maior – e divina - “crescei e multiplicai” são verdadeiras ou falsas isso é outra questão. A mesma lógica papal também condena os indivíduos infectados à abstinência, ou a terem relações somente entre membros do seu grupo de infectados. Pois, segundo a mesma lógica, o uso da camisinha é proibido mesmo aos indivíduos infectados, logo, os indivíduos infectados estão condenados à abstinência ou a transarem entre si e proliferarem o contágio por meio da procriação. A lógica romana é cruel.  Talvez seja mais produtivo para os católicos apostólicos romanos e para o próprio Vaticano, minimizar o valor da lógica no seu quadro de valores e adotar uma prática doutrinária embasada em valores mais amorosos. Priorizar o “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” em detrimento do “crescei e multiplicai-vos”, talvez seja um bom começo.
Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) às 11h50
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