A palavra que entrega
É muito comum, num momento de reflexão mais fina e menos tempestiva, nos arrependermos de coisas que falamos no calor da emoção. A palavra uma vez pronunciada ou escrita expõem as nossas emoções mais íntimas e, muitas vezes, não nos permite corrigir os rumos que lhe determinamos inicialmente. Na semana passada alguns exemplos desta situação vieram à tona na mídia. O bate-boca dos ministros do STF e a explanação inflamada do ex-ministro Ciro Gomes ao tomar a palavra na Câmara dos Deputados para falar sobre a farra das passagens. O ministro do STF, Joaquim Barbosa, arranhou a sua sempre elegante imagem, ao se envolver numa discussão emocionada com o presidente da casa, ministro Gilmar Mendes, e perdeu uma grande oportunidade de mostrar sua habitual inteligência e cultura. Nada que não possa recuperar mais adiante, num momento de maior lucidez e tranquilidade. Afinal, o ministro Barbosa não pretende, pelo menos no momento, ser candidato a nenhum cargo público. Não é o caso de Ciro Gomes. Sua revolta diante dos microfones da Câmara dos Deputados, expôs sua fragilidade numa argumentação desmedida e impactante diante da opinião pública ao pretender defender privilégios indefensáveis. Bater de frente com a atividade da imprensa e do Ministério Público e, ainda mais, utilizando-se de palavras de baixo calão, dedo em riste e demonstrando um semblante completamente desfigurado, trouxe sérios danos a sua imagem de homem público. Se, como mero deputado, age de forma completamente equivocada e autoritária, o que se pode esperar quando ocupar um cargo de mais expressão?
Provável candidato a cargos eletivos em 2010, uma postura completamente inadequada como a demostrada pelo nobre deputado, afeta diretamente sua pretensões políticas. Ciro terá de apagar parte da história, algo quase impossível de ser realizado, num curto período de tempo. Perdeu o rumo ao posicionar-se contra os anseios da sociedade em prol das benesses de uns poucos deputados preocupados apenas com o seu umbigo. Foi, de fato, um gol contra para a suas pretensões políticas de longo prazo. O deputado mostrou despreparo para lidar com a adversidade, e, deve estar tremendamente arrependido. Ciro Gomes jogou contra o patrimônio e agora terá de se dedicar muito mais se quiser reaver o respeito de seus eleitores. A palavra, instrumento essencial de um político, precisa ser usada com parcimônia e sabedoria, pois, caso contrário, provocará estragos enormes a sua carreira e fornecerá a um opositor atento um sem número de razões para desqualifica-lo. Que pena, Ciro perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado. Sérgio Peixoto Mendes, filósofo. Contato: autor@sucatinhas.com.br
Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) às 15h24
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