
Especialistas não são videntes A inquirição, a curiosidade, a inquietude, geralmente, estão na origem das principais descobertas humanas. Uma pergunta bem formulada pode levar à hipóteses extraordinárias. Já a especulação torna-se enfadonha quando busca antecipar os fatos cujas respostas dependem do tempo certo ou de uma ação mais aprofundada, ou seja, querer respostas concretas antes de uma pesquisa metódica e consistente, é optar pelo sensacionalismo. Está acontecendo exatamente isso na mídia com o caso do desaparecimento da aeronave da Air France no Atlântico. As hipóteses colocadas no ar pelas TVs, jornais, sites de noticias, para explicar mais uma catástrofe aérea, são de todos os gêneros e algumas delas, bizarras. Especialistas de todas as áreas já foram ouvidos. Meteorologistas, comandantes aposentados, de folga, autoridades em geral, engenheiros da aviação, todo tipo de gente, já foi convocada para dar entrevistas e injetar na mídia suas hipóteses e explicações para o desaparecimento do A330. Querer buscar as causas de uma catástrofe será sempre muito importante e, até mesmo vital, para se evitar que o evento venha a se repetir no futuro. Entretanto, pôr um especialista no paredão tentando extrair dele uma informação, uma resposta, que por certo ele não possui no momento, não passa de um exercício de adivinhação. Isso não é notícia, é exploração comercial da desgraça alheia. A sensação que fica é a de que todos estão preocupados com a aeronave e não com os impactos que uma tragédia desta proporção pode trazer aos familiares das vítimas, a um país, a uma organização. É a ausência destas pessoas que abrem as lacunas na sociedade, em função do que eram, do que faziam e de seus objetivos de vidas. Esses são os verdadeiros impactos para todos aqueles que direta ou indiretamente foram afetados pelas pessoas desaparecidas. Entretanto, não é auspicioso, nem recomendável, explorar estes momentos de dor, numa situação onde os fatos ainda não foram esclarecidos e a esperança persiste – é a última que morre – para todos aqueles que acreditam que tudo não passa de um grande pesadelo. A realidade é dura, é uma rocha, nestes momentos de apreensão, e nenhuma explicação especulativa poderá amenizá-la, só os fatos, a notícia poderá enterrar de vez todas as especulações e com elas as esperanças daqueles que precisarão seguir adiante administrando suas enormes perdas afetivas. Enquanto isso, deixemos os especialistas em paz, eles não são videntes. Sérgio Peixoto Mendes, filósofo. Contato: autor@sucatinhas.com.br Poa - RS
Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) às 11h40
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