A luta é a meta? Algumas pessoas traçam os seus caminhos e mesmo os seus destinos, a partir das pegadas do seu inimigo. O opositor é o seu ponto de referência principal mesmo que seus exemplos e atitudes sejam seguidos às avessas, ou seja, não sejam seguidos literalmente. Nossas referências nem sempre são positivas, a partir da discordância da atitude do outro traça-se um caminho diferente ou mesmo um rumo oposto, mas, o adversário continua sendo referência. São pessoas que se alimentam da luta, da rebelião, do prazer pela oposição. Para essas pessoas a luta têm valor intrínseco cujo desfecho, mesmo que seja a vitória, não é o objetivo. Na vida muitas estratégias são traçadas a partir da iniciativa do inimigo. No futebol, por exemplo, a astúcia do contra-ataque depende essencialmente do ataque do adversário, caso isso não venha acontecer, a estratégia tende a falhar e, obviamente, o jogo ficará morno, disputado do meio de campo onde ninguém ataca ninguém. Outros exemplos da tese acima são ainda mais impactantes. Tem-se lido no noticiário diariamente sobre as ações, na sua grande maioria invasivas, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST. A luta, em tese, tem como argumento inicial – aquele que aparece - uma necessidade básica desta classe trabalhadora, ou seja, desejam uma gleba de terra para plantar e subsídios e orientações para fazer a coisa certa e colher bem. Entretanto, na prática não é este o argumento que funciona como impulso para a luta, e sim, um conjunto de ideologias, basicamente do SEC XIX, que colocam o Estado e o Capital como inimigos e elegem a foice e a bandeira vermelha como instrumentos que, apoiados pela força e, por vezes, pela violência, alimentam uma luta armada e sem tréguas contra o inimigo de duas cabeças. O Estado desapropria e faz a reforma agrária, alguns trabalhadores repassam as terras e voltam para luta. O Estado fornece os subsídios e estes servem de fundos para alimentar a desavença. A luta é o objetivo e ficar no percalço do inimigo é a meta para aqueles que traçam os seus destinos a partir das pegadas do opressor. Se isso é bom ou ruim depende do ponto de vista. A luta é sagrada, mas a violência não. As terras são abundantes, mas o plantio requer outro tipo de disposição, aquela que tem por base uma postura produtiva e não destrutiva. Transformar terras improdutivas em foco de pobreza não resolve. Invadir áreas produtivas é um contra-senso. Destruir ou tomar de assalto a propriedade alheia é crime. Plantar e colher é tão duro quanto a realidade. Rebelar-se talvez seja mais fácil e comodo, mas é preciso juízo e bom senso. Tudo isso é sabido, mas a luta continua simplesmente porque ela é a meta. A realidade é a tensão de opostos e a paz um sonho, e como fugir à realidade? Sérgio Peixoto Mendes, filósofo. Contato: autor@sucatinhas.com.br
Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) às 13h28
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