Blog da Philoterapia


 

Garis doutores

 

O Rio de Janeiro tem sido foco das principais notícias nos últimos dias. São as olimpíadas de 2016, a terrível violência urbana – ou seria guerra civil? - a fase sofrível do Botafogo e Fluminense no campeonato brasileiro e tantas outras. Mas, um fato alarmante veio a tona no noticiário do dia 22 último. A Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) que está com inscrições abertas para o concurso publico que pretende selecionar 1.400 garis para a cidade, divulgou que entre o 109.193 candidatos já inscritos, que é uma multidão diga-se de passagem, 45 deles possuem doutorado, 22 deles tem mestrado e 1.026 com nível superior completo. Fora isso 3.180 deles possuem curso superior incompleto. Mas, a escolaridade exigida dos candidatos pelo concurso é apenas a quarta série do ensino fundamental.

É injusta, sobre diversos aspectos esta situação. O primeiro ponto a considerar é que doutores, mestres e as demais pessoas de curso superior, provavelmente não estão escolhendo a profissão de gari por livre e espontânea vontade. A falta de vagas nas suas áreas de formação é a provável causa deste elevado número de inscritos no concurso da Comlurb. Afinal, não é de se esperar que uma pessoa frequente por anos a fio os bancos escolares e depois vá varrer as ruas da cidade. Não foi para isso que ele foi preparado, não foi para isso que ele estudou. Varrer as ruas é, sem dúvida, uma atividade, digna, legítima e importante, é um trabalho honesto como outro qualquer, entretanto, precisa de disposição e preparação física que a maioria dos doutores não foram treinados para ter.

O segundo ponto, doutores, mestres e graduados, concorrendo com gente de baixa escolaridade que, na maioria das vezes, não tem formação nem habilidade para atuar em outra área de trabalho, tira destes últimos as chances de conquistar a vaga. É óbvio que um gari não pode lecionar numa faculdade se não estiver capacitado para tal, mas, um doutor, um mestre, pode ser concorrente de uma pessoa mais humilde que, muitas vezes, não tem nenhuma formação escolar para apresentar? A concorrência é unilateral e reduz as possibilidades para os menos favorecidos em termos escolares. Menos mal que os concursos nesta modalidade levam em consideração as aptidões físicas do candidato. Mas, ainda assim, seria aconselhável que os editais limitassem o grau de escolaridade, sem infligir os direitos iguais, talvez definindo quotas ou algo semelhante. Apenas o critério de aptidões físicas é pouco, além do que é muito mais fácil o sujeito se preparar fisicamente em pouquíssimo tempo do que melhorar em tempo exíguo o grau de escolaridade.

A busca pela segurança, por um plano de saúde, pelo benefício do vale-transporte, mesmo que o salário não seja bom, parece ser o elemento motivador e o atrativo para este pessoal escolarizado que busca este tipo de concurso. Mas, a questão básica que precisa ser tratada com urgência é a ampliação das alternativas para absorver o pessoal com formação escolar alta. A legislação precisa ser revista para aumentar as oportunidades e o número de vagas. E alguns desvios precisam ser tratados urgentemente, como por exemplo: criar critérios mais rígidos para a acumulação de cargos e funções, principalmente, entre o público e o privado. Existem ainda os casos de pessoas já devidamente aposentadas com vida estabilizada, ocupando vagas em duas ou três instituições de modo simultâneo – são donos de todas as “cadeiras” possíveis – e, indiretamente, geradores de algumas injustiças sociais. Por que não definir critério aqui neste âmbito, priorizando o primeiro emprego, ou, melhor ainda, priorizando aqueles que ainda não tiverem oportunidade na sua área de formação para mostrarem o seu trabalho a sociedade? Um ambiente oxigenado por novas ideias, novas técnicas, pode apresentar mais resultados do que aqueles ambientes forjado à base de extensos currículos, a maioria deles construídos às custas do erário. Mesclar experiência com entusiasmo pode dar certo. A que se pensar em compartilhar melhor estes espaços, no Rio os mestres e doutores já estão pedindo socorro, daqui a pouco vão começar a torcer que seus colegas "batam as botas" para lhe ocuparem a vaga. Tempos individualistas.

 

Autor: Sérgio Peixoto Mendes, filósofo

Contato: autor@sucatinhas.com.br

 

 



Escrito por Sérgio P. Mendes (Tell) às 10h20
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